1 de agosto de 2017

O 'PAI NOSSO' E AS GLÂNDULAS ENDÓCRINAS :



A ação sobre o sistema glandular é o caminho para se obter a cura ou a enfermidade. A escolha depende de como agimos para influenciar as glândulas. De acordo com Edgard Cayce, as glândulas endócrinas são o ponto de contato entre os nossos três corpos. São nelas que se encarnam o espírito e a alma, e é através delas que se atua no corpo físico. Portanto, a cura se inicia no sistema glandular. Segundo Cayce, o sistema glandular é a fonte de todas as atividades humanas, de todas as disposições, de todos os temperamentos e da diversidade das naturezas e das raças.


O medo, a cólera, a alegria, quaisquer das energias emocionais estão relacionadas com as glândulas endócrinas, pois as mesmas produzem secreções hormonais que se expandem dentro do organismo. Os olhos, o nariz, o cérebro, a traquéia, os brônquios, os pulmões, o fígado, o baço, o pâncreas, não podem funcionar de forma isolada, mas podem renovar-se dentro do conjunto das funções glandulares. Talvez seja neste ponto que o sistema endócrino seja influenciado pelas atividades da alma e é por este caminho que se encontra o dom do Criador.


As glândulas estão relacionadas com a renovação das células, com a degeneração e com o rejuvenescimento, não só da energia física, mas também da energia do corpo mental e do corpo espiritual. É através dessas mini centrais de energia que nosso corpo físico recebe a cura ou a enfermidade. Nossas atitudes mentais não são alheias às nossas atitudes físicas – tais como o nosso falar, o nosso tom de voz, a nossa forma de olhar, pois todas as glândulas endócrinas estão atuando sobre nosso sistema sensorial. Quando Cayce fala sobre como essas glândulas orquestram todas as atividades do corpo físico:


Sua forma, suas manifestações, suas percepções –, ele também comenta a respeito dos centros glandulares maiores, ou seja, aquelas glândulas que secretam hormônios como a pineal, a pituitária, o timo, a tiróide, as supra-renais e as gônadas masculinas e femininas.


Existem outras glândulas no organismo, mas correspondem ao que a tradição hindu chama de chacras, que são as chaves da personalidade humana. Cada uma das glândulas corresponde a uma função precisa, a uma vibração colorida, a um elemento da Terra, a um signo astrológico e a uma influência de um planeta.


A 'pituitária' é a glândula mais alta do corpo; está relacionada com a luz e se desenvolve no 'silêncio'.

A 'glândula pineal' é o ponto inicial para a 'construção do embrião' no ventre da mãe.

A 'tireóide' entra em ação quando se deve tomar uma 'decisão e agir'.
O 'timo' corresponde ao 'coração'.

As ' supra-renais' são o nosso 'centro emocional' e atuam sobre o 'plexo solar'.

As 'gônadas' são 'os motores' do corpo físico.


Edgard Cayce também explica que, por exemplo, todas as glândulas estão envolvidas no sentimento de cólera.

Uma pessoa que está amamentando, tomada por algum estado de cólera, afetará suas glândulas mamárias, e o bebê vai sentir perturbação em suas glândulas digestivas. A reação principal se produz nas glândulas supra-renais.
Cayce estima que as enfermidades chegam ao corpo físico através dos venenos segregados nos centros glandulares pelas atitudes negativas.
E, no sentido contrário, seria possível encontrar a cura trabalhando-se de uma forma positiva, por meio da meditação.


Por exemplo, por meio da oração Pai-Nosso – que encontra correspondência nos centros glandulares.


A oração de forma meditativa pode ter um efeito dinamizante sobre as glândulas; é uma busca para compreender como atua a Força Criadora de Deus sobre o corpo.



A 'pituitária' corresponde à palavra 'Céu';

A 'pineal' corresponde à palavra 'Nome';

A 'tireóide' corresponde à palavra 'Vontade';

O 'timo' corresponde a 'Mal';

O 'plexo solar' corresponde à palavra 'Ofensas';

A 'região do sacro', com as células de Leyden, corresponde à palavra 'Tentação';

As 'Gônadas' correspondem à palavra 'Pão'.

Assim, teríamos a 'correspondência entre os versos do 'Pai-Nosso' e as principais 'glândulas endócrinas', segundo Edgar Cayce:

'Pai-Nosso que estais no Céu' – abre a pituitária (glândula-mestra do corpo);~

'Santificado seja Vosso Nome' – abre a glândula pineal;

'Venha a nós o Vosso Reino' – abre a tireóide;

'Seja Feita a Vossa Vontade, assim na Terra' – abre o timo;
'Como no Céu' – abre a tireóide;

'O pão nosso de cada dia nos dai hoje' – abre as gônadas (glândulas sexuais masculinas e femininas);


'Perdoai-nos nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam' – abre as supra-renais;

'E não nos deixeis cair em tentação' – abre as células Leyden (ou glândulas de Leydig, que não são verdadeiramente glândulas, mas sim um conjunto de células secretoras de hormônios, localizadas abaixo do umbigo e por cima das gônadas);

'Mas livrai-nos do Mal' – abre o timo;

'Pois é Vosso o Reino' – abre a tireóide;
'O Poder' – abre a glândula pineal;

'E a Glória' – abre a pituitária.



TFA/PP

26 de junho de 2017

Grande Oriente Lusitano - Fernando Lima reeleito para terceiro mandato.



Os resultados são provisórios mas apontam Fernando Lima como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano. Os resultados oficiais serão conhecidos no dia 4 de julho de 2017.

Fernando Lima foi reeleito para o seu terceiro mandato, acompanhado pelo historiador António Ventura e pelo Carlos Vasconcelos, que ocupa a presidência do Grande Tribunal Maçónico do Grande Oriente Lusitano.

O Grão-Mestre Fernando Lima é advogado e gestor. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito de Lisboa e Pós-Graduado em Direito Europeu e em Contabilidade e Finanças pelo ISG de Lisboa.

O My Fraternity deseja ao Grão-Mestre Fernando Lima as maiores felicidades e a todos os Irmãos do Grande Oriente Lusitano.

TFA/SFU: 



24 de junho de 2017

300 Anos de Maçonaria - Grande Loja Unida da Inglaterra



Origem e importância da maçonaria organizada no mundo:
No dia 24 de junho de 2017, a Maçonaria Organizada completará três séculos de existência.
Os números impressionam: a Maçonaria chega a 300 anos em 2017.2017 forma o número um, que representa a energia criativa, a originalidade e a individualidade, diz respeito ao poder, à masculinidade e à objetividade. Um é a unidade de Deus, e também representa o Eu - a personalidade individual do ser humano. A numerologia também é objeto de estudo da maçonaria.
O tricentenário maçônico, poderá representar, sem dúvida, uma renovação.


O Começo da Maçonaria Simbólica:
Em 24 de junho de 1717, fundou-se a Grande Loja de Londres e Westminster, na Inglaterra. Teve início, assim, o que hoje chamamos de Sistema Organizado, ou Obediencial da Franco-Maçonaria tal qual hoje é conhecida.
Membros de quatro Lojas encontraram-se informalmente na taverna Crown, em Counvert Garden, naquela data. Acharam por bem "unirem-se sob um Grão-Mestre, "como Centro de União e Harmonia”.
As quatro Lojas envolvidas nesta decisão não tinham nomes - eram identificadas pelos nomes das tavernas ou cervejarias em que se reuniam. Eram elas:
I – Goose & Gridon (Ganso e Grelha), perto da Catedral São Paulo;
II – Crown (Coroa), em Perkers Lane;
III – Apple Tree (Macieira), da Charles Street;
IV – Rummer & Grapes (Copázio e Uvas), em Cannel Row, Westminster.
As quatro lojas formaram, então, um movimento de articulação em rede que se espalhou pela Inglaterra, Escócia, França, Holanda e Alemanha, consolidada por regras e constituições compiladas em atas, entre 1720 e 1723.
Com a fundação da maçonaria organizada, estabeleceu-se um novo tipo de relação piramidal, através da qual as Lojas existentes aderiram a um novo órgão, chamado Grande Loja, formando uma potência atratora, transcendendo o caráter operativo das organizações então existentes para constituir-se em uma organização simbólica, política e filosófica. Os resultados dessa organização fazem-se sentir na história do ocidente até os dias de hoje.



As ordens maçônicas na antiguidade:
As ordens maçônicas têm origem na antiguidade - no costume dos mestres de obras dos grandes templos e fortificações, de manter em segredo as plantas, fórmulas de cálculos e segredos das construções, compartilhando-os apenas entre seus iguais. A introdução dos novos mestres, escolhidos dentre os oficiais auxiliares das obras, nessas sociedades, se fazia por adoção. Era a forma de manter em segredo a engenharia dos templos e fortificações, garantir a segurança das obras e manter a qualidade e valorização da própria atividade - a engenharia da antiguidade.

Muitos pagavam com a vida a manutenção do juramento secreto.
Na idade média, as hansas, corporações de ofício e, principalmente, as guildas, permitiram à essas sociedades de mestres, oficiais e aprendizes, ganhar caráter operativo, sistematizar conhecimentos, e organizar-se em células, reunidas em lojas, transcendendo o rol de construtores para atingir, também, comerciantes e artesãos. Formavam corporações privilegiadas, que se furtavam de toda a regulamentação oficial e guardavam os segredos da profissão.

O vínculo com a tradição da construção, no entanto, constituiu sempre a marca de identificação dessas lojas. Daí procede a terminologia (maçom = pedreiro) e os símbolos de ferramentas, como o martelo, a paleta e o esquadro.

Havia, porém, um componente importante, filosófico e religioso, nesse amalgama organizacional: a profunda influência da Ordem dos Cavaleiros Templários sobre a economia medieval.




Os Templários:
Coube à Ordem dos Templários, entre 1119 e 1312, sob voto de pobreza, zelar pela organização financeira, comercial e logística da economia na Europa e oriente próximo, garantir militarmente a segurança dos viajantes e seus valores e manter a salvo o caminho dos peregrinos até Jerusalém.
Os templários guardaram as estradas, cobraram pedágios, garantiram a circulação das moedas, emitiram títulos de crédito (invenção templária) e, guardaram os valores em depósito. Foram os primeiros banqueiros da história (e os únicos, ao que tudo indica, que não se conspurcaram com o dinheiro). Fizeram jorrar o sangue para trazer a paz ao ocidente.
Guardiões desde a primeira cruzada, do Templo de Salomão, em Jerusalém, e excelentes militares, os templários não ganharam poder por conta da força militar e do dinheiro - na verdade esse poderes foram consequência de outro maior, proveniente da busca obstinada pelos mais profundos conhecimentos sobre os fundamentos espirituais do cristianismo, sua raiz judaica e sua derivação islamita, sobre os símbolos e as razões estruturais contidas na construção e funcionamento do Templo de Salomão, sobre a Arca da Aliança, o Carro Celestial visto por Ezequiel e, sobretudo, a Cabala. Os Templários patrocinaram pesquisas e guardaram conhecimentos sobre a filosofia natural, estudos mítico-alquímicos, esoterismo, astrologia, signos e simbologias das formas geométricas e dos números.

Uma clara evidência da interrelação dos cavaleiros templários com a maçonaria está na construção da loja maçônica na abadia da cidade de Kilwinning, na Escócia, em 1140. De acordo com o histórico da Loja, nesta época, o Papa Inocêncio II (o mesmo que apoiou e estabeleceu privilégios aos Cavaleiros Templários em 1139) criou corporações (ou fraternidades) de pedreiros, e deu a elas certos privilégios com o objetivo de enviar artistas italianos, que eram famosos por construírem catedrais, para erguerem igrejas em outros países também. Uma guilda destes pedreiros e forasteiros parece ter ido a Kilwinning, para construir a abadia, e de acordo com os relatos da Loja, lá fundou e constituiu a primeira Loja da Escócia. A Loja foi fundada na sala capitular dentro da abadia, uma sala com 11,6 x 5,8 m, e ali permaneceu até sua reforma em 1560, quando uma desavença entre os nobres Earl de Glencairn e Earl de Eglinton (que de comum só tinham o primeiro nome), resultou na destruição da abadia.
O fato é que toda essa ebulição templária, rica em todos os aspectos e profundamente transformadora, "transbordou" - extravasou os diques ideológicos e de controle mantidos pela igreja e passou a perturbar todas as monarquias europeias. Assim, por ordem do Papa, os templários foram brutalmente exterminados.
Esse episódio histórico representou o cisma moral entre religião, economia e Estado.
O destino dos Templários guarda profunda relação com a formação filosófica da maçonaria simbólica e organizada. A maçonaria organizada surge laica, universal, aclassista e humanista. Seus membros zelam pelos princípios da liberdade, democracia, igualdade, fraternidade e contínuo direito ao aperfeiçoamento intelectual. Lutam obstinadamente pela separação do Estado da Religião.




A Paz de Westfália e as revoluções:A maçonaria organizada, assim, passou a assumir papel fundamental na política moderna.
De fato, admitir que todo homem é livre e possui bons costumes, não fazer distinção de raça, religião, ideário político ou posição social, ter como critério de admissão o espírito filantrópico e a busca da perfeição, em plena era do absolutismo... era algo extremamente revolucionário (e de certa forma, ainda o é, nos dias complexos de hoje).

A organização política da moderna maçonaria guarda raízes também nas articulações para por fim à Guerra dos Trinta anos e outros conflitos históricos em curso na Europa, em 1648. Neste ano, católicos e protestantes firmaram a Paz de Westfália, um conjunto de tratados que constituem o marco inicial dos estados nacionais e da diplomacia moderna.
Os tratados reconheceram a soberania dos estados, instituíram a diplomacia e decidiram que os conflitos posteriores na Europa não mais teriam como motivo principal a religião, permitindo, assim, a aliança entre países protestantes e católicos em eventuais futuros conflitos. Ou, seja, o início do fim das teocracias na Europa. O teor desses tratados tiveram enorme influência no pensamento maçônico.
A Maçonaria Organizada, espalhou-se como rastilho de pólvora, no Século XVIII - e tornou-se receptáculo da filosofia das Luzes, propagando o iluminismo, o pluralismo e o laicismo pelo continente europeu e colônias ultramarinas.
Difícil saber se o iluminismo influenciou a maçonaria ou... foram os maçons grandes iluministas. O fato é que há um fio condutor da maçonaria no século das luzes. No final do século XVIII já existiam 700 lojas na França, compostas por grande quantidade de nobres e membros da classe média e do clero.
Apesar dos Papas Clemente XIII e Bento XIV terem proibido a maçonaria em 1738 e 1751 - pois era evidente o conflito entre os interesses clericais no Estado e o laicismo político pretendido pelos maçons, o fato é que grande número de clérigos já integrava a organização.
Músicos da importância de Mozart integraram a maçonaria. Grandes militares, como La Fayette, também.
A maçonaria formou a estrutura teórica (e operativa) da Independência Americana e da Revolução Francesa. George Washington e Benjamin Franklin, introduziram os princípios maçônicos na declaração de independência dos Estados Unidos. A Revolução Francesa adotou o lema maçônico "Liberdade, igualdade, fraternidade".
Há sinais evidentes da maçonaria na independência e formação política de todos os países americanos - incluso o Brasil. Há forte traço maçônico na formação clássica do judiciário como um poder autônomo, em todo o mundo, bem como na ordem dos trabalhos em todas as casas legislativas.
No século XX, os maçons conheceram a perseguição institucionalizada. Comunistas e Nazistas tinham os maçons como inimigos de Estado. Na guerra fria, os maçons americanos foram vistos com desconfiança por Macartistas enquanto na Europa, eram desprezados pela esquerda existencialista. Foram caçados nos países de religião muçulmana, por motivos óbvios e, também, combatidos pela direita ortodoxa israelense.
A maçonaria, de certa forma, moldou a governança dos séculos XIX e XX, e, também, viu seus valores serem fortemente conflitados nesse mesmo período.



O futuro da Ordem:
Existem hoje, no mundo, aproximadamente 6 milhões de maçons, espalhados pelos 5 continentes. Destes, 3,2 milhões vivem nos Estados Unidos, 1,2 milhões no Reino Unido e um milhão no resto do mundo. No Brasil, calcula-se que existam aproximadamente 150 mil maçons e 4.700 lojas regulares.
O número respeitável de maçons, no entanto, necessita de emprego eficaz.
Hoje, o conflito entre governo global, nova ordem mundial e resgate das nacionalidades, o isolacionismo em contraponto à regionalização das economias, o radicalismo intolerante protofascista e o terrorismo islâmico, também representam desafios da maçonaria moderna.
Recentemente, em 2012, a Grande Loja Unida da Inglaterra entrou em conflito com a Grande Loja Nacional Francesa - praticamente antecipando o brexit e reinaugurando a história da Ordem na Europa. A questão da globalização, do resgate dos interesses nacionais, do uso dos conflitos humanitários como forma de manutenção no poder da hipocrisia politicamente correta, da reação à imigração e do risco à segurança dos cidadãos face ao terrorismo, influencia os rumos da maçonaria europeia tanto quanto a maçonaria no resto do mundo.
Talvez a ordem maçônica mereça renovar-se após trezentos anos de vida simbólica. Talvez necessite rever os símbolos. Talvez seja o momento do resgate de velhas raízes. A verdade é que há uma indefinição de rumos, em meio a indefinições em toda a ordem mundial.
Os números do jubileu maçônico, no terceiro século de sua constituição simbólica, podem significar mais que mera numerologia...
Hora de repensar, do caos... uma nova ordem?



Fonte: Antonio Fernando Pinheiro Pedro é advogado (USP), jornalista e consultor ambiental. Sócio diretor do escritório Pinheiro Pedro Advogados, integra o Green Economy Task Force da Câmara de Comércio Internacional. Membro do Instituto dos Advogados Brasileiros – IAB, membro das Comissões de Infraestrutura e Sustentabilidade e Política Criminal e Penitenciária da Ordem dos Advogados do Brasil – Secção São Paulo (OAB/SP). É Vice-Presidente e Diretor Jurídico da API - Associação Paulista de Imprensa. Editor do Portal Ambiente Legal e do blog The Eagle View. Membro da Academia Paulistana Maçônica de Letras - APML (cadeira 38, Jânio Quadros). - Potal The Eagle View



TFA/SFU

Ir Daniel Martina - Fundador Filhos do Arquiteto Brasil

.´.




21 de abril de 2017

Tiradentes - Em Busca da Tradição Inventada




A partir de 1870, a maçonaria elege Tiradentes como seu símbolo maior e reivindica a organização do levante dos inconfidentes.


A história é continuamente reescrita. À medida que a realidade presente muda, as interpretações acerca de um fato passado também são alteradas, buscando respostas que correspondam melhor às necessidades do tempo atual. Foi assim com a Inconfidência Mineira (1789). Poucos momentos foram tão debatidos, reescritos e apropriados quanto esse.


Durante boa parte do século XIX, a Inconfidência não assumiu lugar de destaque na historiografia brasileira. Tal situação modificou-se apenas na segunda metade do século, quando o princípio da nacionalidade tornou-se uma questão premente a ser resolvida. Urgia ao Brasil a construção de laços de pertencimento capazes de criar um sentimento nacionalista, e era fundamental encontrar os elementos fundadores da nação, construindo uma identidade que pudesse particularizá-la. Com o golpe militar que inaugurou a República em 1889, essas necessidades foram reforçadas. O regime instaurado de cima para baixo estava longe de apresentar-se como uma demanda da população em geral. Assim, era preciso legitimá-lo perante o povo, apresentando- o não como um elemento estranho à sociedade, mas sim como um desejo histórico presente havia muito tempo.





No monumento à civilização mineira, Tiradentes na forca. Praça da 
Estação Ferroviária, Belo Horizonte

A solução para essas questões passava pela criação de um mito fundador que estabelecesse uma idéia de continuidade entre o fato presente e o passado brasileiro. Era necessário criar uma tradição republicana para a nação por meio de heróis que já tivessem ansiado pela implantação desse regime. Nessa ocasião, a Inconfidência Mineira e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, assumiram com propriedade o papel de precursores da República.

A escolha de Tiradentes como herói nacional não é difícil de ser explicada. Com a publicação da obra de Joaquim Norberto de Souza e Silva,História da Conjuração Mineira (1873), que ressaltava o fervor religioso do personagem nos últimos momentos de sua vida, inúmeras representações simbólicas tornaram-se possíveis, aproximando-o à figura de Cristo. Outro fator importante para essa opção foi que o movimento não aconteceu efetivamente, o que poupou os inconfidentes do derramamento de sangue e os manteve imaculados. Eles foram apenas vítimas da violência, nunca agentes.


A Inconfidência como objeto passível de ser novamente apropriado permitiu à historiografia refazer as linhas gerais do levante sempre que a conjuntura política brasileira teve necessidade de reavivar o sentimento nacional. Seu legado simbólico foi retomado de tempos em tempos, mais especificamente nos momentos de rupturas históricas no decorrer do século XX. Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e até mesmo os militares de 1964, auto-intitulados “os novos inconfidentes”, apropriaram-se do fato histórico em favor de seus interesses políticos. Sob novas roupagens, o mito repetia-se incessantemente.


Contudo, não foram apenas os governos que utilizaram a influência do movimento e de seu herói. Muitas instituições também procuraram um “lugar ao sol” nessa festa de apropriações simbólicas. Foi o caso da maçonaria, que tomou Tiradentes como seu símbolo maior no Brasil ainda no século XIX. A partir de 1870, ocorreu um crescimento acelerado do número de lojas maçônicas no país e muitas delas foram batizadas de “Tiradentes”. 


Freqüentemente, suas bibliotecas tinham o inconfidente por patrono e até mesmo os jornais maçônicos carregavam seu nome. Já no século XX, Tiradentes pareceu ganhar em definitivo um lugar de destaque no panteão maçônico, tornando-se patrono da Academia Maçônica de Letras.


Mas por que esse mineiro poderia representar a maçonaria? Que legitimidade haveria nisso? “Simples”, responderiam os historiadores ligados a essa organização: Tiradentes teria sido maçom, e a Inconfidência Mineira, uma conspiração maçônica em prol da libertação nacional!







Antônio da Silva Parreiras (1860-1937), Jornada dos mártires, óleo sobre tela (200 cm x 365 cm), 
MUSEU MARIANO PROCÓPIO, JUIZ DE FORA (MG)


Muitos maçons, historiadores ou não, aventuraram-se a escrever sobre o episódio para desvendar sua “verdadeira” história e demonstrar o papel crucial da maçonaria na definição dos acontecimentos de 1789. Em geral, essas narrativas começam demonstrando que a Inconfidência não foi um episódio regional. Tal movimento teria feito parte de um projeto internacional elaborado para tornar livres todos os povos oprimidos. A Inconfidência, a Revolução Francesa e a Independência dos Estados Unidos seriam expressões de um mesmo fenômeno: o do anseio revolucionário por independência, democracia e liberdade que sacudiu a Europa e a América por meio das atividades maçônicas.



Desse modo, o sentimento nativista (ver glossário) não seria suficiente para explicar os anseios dos inconfidentes pela República. Acreditar apenas nisso, segundo os escritores da maçonaria, seria “ingenuidade e romantismo”. Os conspiradores mineiros agiriam inspirados não só pela idéia de nação brasileira, mas, principalmente, pelos sentimentos de sua organização. “Mirando-se no exemplo vitorioso da revolução americana guiada por George Washington, Thomas Jefferson, etc., (...) os líderes inconfidentes questionaram o que a metrópole impunha como sendo inquestionável”, escreve o maçom Raymundo Vargas. Eles não teriam planejado uma revolta se não tivessem certeza de que os “irmãos” americanos prestariam auxílio ao restante do continente. O projeto também incluía a Europa, e a França foi o palco escolhido para os contatos que uniriam o Brasil “ao elo dessa corrente universal de liberdade”.



Gilbert Stuart, George Washington, 1795. 
O presidente americano teria inspirado Tiradentes


A narrativa maçônica apresenta-se confusa para aqueles que sabem que a instituição foi fundada no Brasil em 1801. A Inconfidência poderia caracterizar-se como um movimento maçônico se ainda não havia lojas no Brasil? De acordo com seus escritores, haveria, sim, centenas de maçons organizados em lojas, mas estas funcionavam clandestinamente, já que a ordem se encontrava proibida pela legislação portuguesa.



O relato que inaugurou a crença em uma Inconfidência de caráter maçônico partiu de Joaquim Felício dos Santos, que, curiosamente, não era maçom. Em sua obra Memórias do distrito diamantino da comarca do Serro Frio (1924), ele escreve que a “Inconfidência de Minas tinha sido dirigida pela maçonaria, Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres”. Com base nessa passagem, estudiosos, maçons ou não, começaram a associar automaticamente a Inconfidência à maçonaria. Surgiu a crença de que Tiradentes, que ia muito à Bahia para refazer o sortimento de mercadorias de seu negócio, acabou, numa de suas viagens, tornando-se maçom. Ele seria o responsável pela criação de uma loja maçônica, local onde os conjurados teriam sido iniciados na organização, “introduzida por Tiradentes quando por aqui passava vindo da Bahia para Vila Rica”, escreve Tenório D’Albuquerque.


Prova maior da importância do triângulo como símbolo maçônico teria se dado no momento da execução de Tiradentes, quando o maçom e capitão Luiz Benedito de Castro não distribuiu as tropas em círculo como de costume, e sim formou um triângulo humano em torno do patíbulo. A multidão “não poderia compreender o significado simbólico daquele triângulo, mas Tiradentes, no centro dele, compreendia aquela última e singela homenagem”, descreve Raymundo Vargas.



Finalmente, as narrativas maçônicas encontram explicação também para um instigante mistério: o sumiço da cabeça de Tiradentes. A urna funerária contendo a cabeça do herói da Inconfidência teria sido retirada secretamente às altas horas da noite pelos irmãos maçons remanescentes do movimento. O roubo da cabeça seria, segundo Raymundo Vargas, uma das primeiras afrontas da maçonaria às autoridades repressoras portuguesas, mostrando-lhes que “a luta só começava”. Segundo autores maçons, não teria sido por acaso que, no mesmo local onde a cabeça de Tiradentes fora exposta, o então presidente da província mineira e grão-mestre da maçonaria brasileira em 1874 Joaquim Saldanha Marinho, em 3 de abril de 1867 ergueu uma coluna de pedra em memória do mártir maçom.



Vários outros aspectos da Inconfidência foram trabalhados pelos autores ligados à organização, tais como a personalidade maçônica do Visconde de Barbacena ou as “irrefutáveis” provas da viagem de Tiradentes à Europa para fazer contato com seus irmãos da ordem. Percebe-se que a maçonaria, por meio de seus intelectuais, construiu uma série de argumentos para não deixar dúvida quanto ao papel de destaque dessa instituição no desenrolar de todos os fatos da Conjuração. Recentemente, surgiram alguns trabalhos elaborados por historiadores maçons mais criteriosos que refutam muitas das teses aqui apresentadas. Contudo, estes ainda não foram suficientes para derrubar do imaginário maçônico a figura do herói mineiro.





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De fato, existem vestígios de que maçons passaram pelas Minas setecentistas. Analisando os processos inquisitoriais luso-brasileiros de fins do século XVIII e início do XIX, encontram-se denúncias contra mineiros de Vila Rica e do Tijuco, acusados de libertinos, heréticos e maçons. Sabe-se também que muitos estudantes brasileiros em Coimbra e Montpellier iniciaram-se na maçonaria européia e trouxeram seus valores e idéias para o Brasil. Alguns deles, como José Álvares Maciel e Domingos Vidal, ajudaram nos planos dos inconfidentes.



Para além da discussão da veracidade ou não desses relatos acerca da Inconfidência, é interessante perceber de que maneira a elaboração de tal narrativa histórica favorece a instituição dos pedreiros livres. Em diversos momentos, a presença da maçonaria em território brasileiro foi questionada. Com a proclamação da República, por exemplo, a Igreja Católica perdeu o título de religião oficial do Estado e, para tentar reaver sua influência política, reforçou o combate à organização. O catolicismo oficial passou a apresentar a maçonaria como uma sociedade “estranha” à cultura brasileira, vinda de fora, representante do imperialismo e, logo, uma ameaça à soberania nacional. Mais tarde, com esses argumentos, Getúlio Vargas a colocaria na ilegalidade.


Diante de situações como essas, tornou-se fundamental para a maçonaria apresentar-se à sociedade brasileira como uma instituição que, ao contrário do que dizem seus opositores, mostra se presente há tempos em nosso território e em nossa cultura. Assim, a narrativa da Inconfidência como um movimento maçônico pode ser denominada de “‘tradição inventada”, expressão cunhada por Eric Hobsbawm que indica a criação de um passado com o qual se busca estabelecer uma continuidade. Construir por meio de uma historiografia uma tradição na qual os maçons teriam feito parte do momento fundador da nação brasileira é, sem dúvida, uma maneira de assegurar sua presença no Brasil. Ao associar a imagem de Tiradentes à sua, essa ordem passa a ser lembrada como a defensora dos nobres valores carregados pelo herói nacional. Mais do que uma forma de defesa, a apropriação maçônica da simbologia da Inconfidência lhe dá legitimidade perante a sociedade. Por ora, a estratégia teve êxito na medida em que a insurreição de 1789 e a atuação maçônica encontram-se, ainda hoje, intimamente associadas no imaginário popular.





A BANDEIRA MINEIRA

A origem da bandeira de Minas Gerais é mais uma prova, para os maçons, do envolvimento desta organização na Inconfidência. “Se ainda ao mais incrédulo dos incrédulos restasse um resquício de dúvida quanto à origem maçônica da Inconfidência Mineira, bastaria contemplar-lhe a bandeira”, afirma Tenório D’Albuquerque, em A bandeira maçônica dos inconfidentes. Utilizando como disfarce a idéia da Santíssima Trindade, o triângulo representaria, na verdade, a sagrada trindade da maçonaria: liberdade, igualdade e fraternidade. No interrogatório relatado nos autos da devassa, ao ser perguntado sobre o significado da bandeira, Tiradentes teria respondido “sagrada trindade” e não “santíssima”. Tal detalhe supostamente passou despercebido ao escrivão.



DISCORDÂNCIA ENTRE OS HISTORIADORES



A historiografia acadêmica encontra-se longe de um consenso acerca da participação ou não da maçonaria na Inconfidência. As hipóteses vão desde o papel central dos maçons na elaboração dos planos do levante até a negação total de sua influência na Conjuração.


Augusto de Lima Júnior ressalta o papel da maçonaria ao percebê-la como um importante elemento de ligação e comunicação dos inconfidentes com os grupos de apoio no Rio de Janeiro e na Europa. Em posição oposta está Lúcio José dos Santos, alegando que o fato de não haver nenhum vestígio da ação propriamente maçônica nos autos da devassa seria a maior prova da ausência dessa sociedade na Inconfidência. Também argumenta que, se a maçonaria possuísse prestígio suficiente a ponto de ser a idealizadora do movimento, ela teria tido forças para impedir a condenação de seus membros. Finalmente, a meio-termo entre as duas opiniões encontra-se Márcio Jardim, para quem a atuação maçônica teria sido importante, mas secundária: seu papel seria apenas o de aglutinar pessoas e idéias. O autor observa, ainda, como a maçonaria dos dias atuais se apropria da figura de Tiradentes, o que revelaria um desejo de mostrar poder acima do comum, causando lhe surpresa o fato de “boatos sobreviverem ao tempo e à evidência das provas contrárias”.


CURIOSIDADES DE TIRADENTES:


Seu nome completo era Joaquim José da Silva Xavier. Nasceu no ano de 1746, na Fazenda do Pombal, distrito de São João del Rey, em Minas Gerais. Porém, não há registro da data de seu nascimento, apenas do seu batismo, em novembro daquele mesmo ano.

  • Tiradentes tentou várias profissões: dentista, tropeiro, minerador e engenheiro. Entrou, então, para a Sexta Companhia de Dragões de Minas Gerais, como alferes, uma espécie de segundo-tenente.


  • Tiradentes está diretamente ligado ao movimento que ficou conhecido como "Inconfidência Mineira". Os historiadores preferem "Conjuração Mineira" já que o que aconteceu em Minas Gerais foi um ato organizado para conquistar a independência do país e não um ato de deslealdade, traição ou infidelidade, que servem para traduzir a palavra inconfidência.


  • Após o enforcamento, seu corpo foi esquartejado. As 4 partes foram postas em alforjes com salmoura, para serem exibidas no caminho entre Rio de Janeiro e Minas Gerais. A casa de Tiradentes em Vila Rica foi demolida, e o chão, salgado, para que nada brotasse naquele solo.


  • Foi no Rio de Janeiro que Tiradentes entrou em contato com as idéias revolucionárias iluministas. O que poucos sabem, é que ele também se dedicou a projetos de melhoria urbana do Rio. Idealizou abastecimento regular da cidade, construção de moinhos, trapiches, armazéns, além de serviços de barcas de transporte de passageiros.


  • Tiradentes é o único brasileiro cuja data de morte se comemora com um feriado nacional. É também o mais citado no Google, com mais de 2 milhões de páginas de referência no buscador.


  • Tiradentes não foi considerado um herói tão logo morreu e só passou a ser cultuado 98 anos após a sua morte. Como defendia idéias iluministas republicanas e antimonarquistas, durante o período imperial brasileiro, seu nome quase não era citado. 

  • "Pois seja feita a vontade de Deus. Mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pela libertação da minha pátria", teria dito Tiradentes ao ouvir serenamente a sua sentença de morte.

Biografias:




Autores: 
Françoise Jean de Oliveira Souza
Doutoranda em história pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Autora da dissertação Vozes maçônicas na Província Mineira – 1869-1889, UFMG, 2004